Um amor para todas as vidas – um conto de Marlene Passos

Um amor para todas as vidas – um conto de Marlene Passos

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Num parque de diversões, crianças brincavam alegremente enquanto as mães conversavam. Cristian e Cristiane, apesar de terem apenas 8 anos, juravam amor eterno. Estudavam na mesma classe, eram vizinhos e as famílias cultivavam amizade de longa data. O tempo passou e na adolescência oficializou-se o namoro; um sentimento indescritível tomava conta de ambos. Um amor para várias vidas.

Chega o tão sonhado dia da formatura. Jornalistas, com orgulho! Depois da festa, toda turma de formandos foi para o aeroporto, de onde seguiriam em uma excursão a Fernando de Noronha. No avião, aquela alegria! Cristian e Cristiane olham-se com ternura e um dá parabéns ao outro. Em seguida, se beijam. Era tanto amor naquele beijo que nem sentiram que uma terrível tempestade aproximava-se. A turbulência jogava o avião de lado a lado, todos gritavam, o avião perdia a altitude e começava a cair de bico. O pavor era geral, mas o casal apaixonado nem se dava conta do momento, o êxtase da paixão era tanto que já estavam no paraíso.

Antes da queda, um raio de grande proporção causa a explosão do avião e fragmentos caem no mar. A tragédia vira notícia, o tempo passa rapidamente e todos esquecem do acontecimento. Cada um na sua rotina, vivendo sonhos, lutando, ganhando e perdendo. Vivenciando a vida… Certo dia Caroline, bióloga marinha, mergulhava para buscar algas que usava em suas experiências, quando, mexendo na areia profunda, encontra uma pulseira de ouro com data e nomes gravados.

Emerge e senta na praia, olhando a joia. Pensa consigo mesma: Cristian e Cristiane… Nossa, já faz 60 anos… De quem será essa pulseira? Vou colocá-la. Se encontrar o dono, a entrego. Cansada, vai para casa e num repente adormece. Em sonho, começa sentir uma sensação estranha de saudade e sem entender enxerga uma imagem.

Acorda com o coração palpitando, sentindo falta de alguém.

– Mas o que é isso? Um pesadelo? Sinto-me tão livre e feliz sozinha, não entendo essa reação! Vou tentar dormir novamente, não quero mais sentir isso!

Caroline fecha os olhos e dorme. O sonho surge como uma porta abrindo-se, revelando imagens confusas e vazias.

Amanhece e com o sol vem o alívio de uma noite cansativa.

Ela olha para a pulseira no braço e pensa:

– De quem será?

Sai para mais um dia de pesquisa e encontra o amigo Paulo.

– Bom dia, Paulo, tudo bem?

– Tudo bem, amiga, chegou um biólogo ontem à noite, está fazendo doutorado. Seu nome é Carlos Henrique, está na praia admirando o lugar da pesquisa.

– Vou encontrá-lo, estou com uma mostra diferente de algas, talvez ele possa ajudar-me a chegar a uma definição.

– Ok, vai lá, amiga.

Caroline vê o biólogo de costas e o chama:

– Olá, você é o novo biólogo Carlos Henrique?

Ele vira-se para ela e ambos sentem uma forte vibração. Sem entender, aproximam-se:

– Olá, sou eu. E você, quem é?

– Sou bióloga também, me chamo Caroline.

– Muito prazer em conhecê-la.

– Igualmente.

De repente ele é atraído pelo brilho da pulseira de ouro e diz:

– Linda joia, mas não me é estranha…

– Ah, eu achei. Se é de alguém que conhece eu a devolvo.

– Não, não conheço a joia, apenas senti que a conhecesse, mas é impossível, estou vendo-a pela primeira vez.

Mas, fale-me sobre suas pesquisas.

– Achei uma alga que não estava no meu catálogo, parece-me que está havendo uma transformação em suas células por causa do aquecimento das águas, às vezes parece um camaleão, muda de cor e, ao contrário do que deveria, em vez de liberar oxigênio ela está liberando gás carbônico.

– Isso é ruim!

– Exatamente.

– Você pode levar-me onde há mais dessas algas?

– Sim, vamos lá.

Colocam o equipamento de mergulho e vão em busca de matérias para pesquisa.

Chegando ao local, as algas mostram-se maiores e parecem entrelaçá-los. De uma forma estranha, começam a sugar o oxigênio dos cilindros. Rapidamente os biólogos emergem.

– Mas o que foi aquilo? Um ataque de algas!

– Parece que nosso oxigênio foi quase zerado!

– Muito estranho isso!

– Não deu para colher nenhuma amostra, mas tenho no laboratório, vamos lá, deixei-a num viveiro de plantas aquáticas.

Chegando ao laboratório, a alga havia sugado a energia das outras plantas e estava bem maior.

– Estou atônita! Não sei o que dizer!

– Vamos fazer uma experiência: colocá-la num lugar fechado de vidro, apenas com gás carbónico. Amanhã voltaremos e veremos o que aconteceu.

E assim foi feito. Na manhã seguinte, a alga estava bem pequena e apenas de uma cor.

– Isso quer dizer que o oxigênio, de repente, alterou o sistema, fazendo-a consumir de uma maneira desordenada e com a pressão interior liberou gás carbônico.

– Gás carbónico já tem demais em nosso planeta!

– Exatamente, mas que tal descansarmos um pouco?

– Tem um quiosque aqui perto, é uma maravilha.

– Vamos lá!

Enquanto caminham e conversam pela areia macia, a mente de Caroline parecia estar em outro lugar.

– Tudo bem?

– Às vezes parece-me tão distante…

– Não estou conseguindo entender a atração que sinto ao olhar para sua pulseira.

– Gosta tanto de ouro assim? – Ambos começam a rir.

– Não é isso. Não sei explicar.

– Eu achei, mas se quiser posso dar a pulseira prá você.

– Não, imagina!

– Mas então coloca a pulseira um pouco.

Caroline põe a pulseira no braço de Carlos Henrique e, num impulso, ele a segura nos braços e a beija com saudade e paixão. Depois, se afastam e ele pede desculpas.

19092018a - Um amor para todas as vidas - um conto de Marlene Passos

– Desculpe-me, não sei o que aconteceu… Parece que num segundo não era eu, não era você…

Em minha mente me enxerguei colocando a pulseira em seu braço como se fosse um presente…

– Também senti a mesma coisa…

– O que isso quer dizer?

– Vamos investigar.

– Na pulseira tem os nomes e a data.

– Deve haver uma explicação para esse mistério…

Os dois deixam a experiência das algas com outros biólogos e vão investigar aquele mistério. Pesquisando sobre a data que estava na pulseira descobriram que houve um acidente de avião e entre os mortos estavam um casal: Cristian e Cristiane. Ficam assustados e olham-se.

– Estou sem palavras…

– Eu também… E o que estamos sentindo? Parece que nos conhecemos há uma eternidade…

– Não sei explicar… Você acredita em reencarnação?

– Não! Claro que não! Seria uma amnésia sem sentido! De que vale estudar, sofrer, ter valores e tudo ser esquecido?

– Também não acredito, mas o que estamos sentindo?

– É tudo muito misterioso… Se observarmos, não somos os mesmos de quando éramos crianças, somos outras pessoas.

– Sim, mas lembramos de muitas coisas.

– E o que estamos sentindo não seria uma espécie de lembrança? Olha para mim, no fundo dos meus olhos, e diga o que sente.

– Sinto que não há tempo, não há distância, não há formato, há apenas emoção…

– Sinto o mesmo. É como se a forma fosse apenas um suporte, a essência é nosso elo.

– Deixe-me beijá-la, procure esquecer do personagem que ocupa, apenas sinta o que tiver que sentir.

Ambos aproximam-se e deixam levar-se por ondas da imaginação, rompem barreiras, tempo, vínculos, rótulos, costumes, apenas sentem a sensação de serem apenas existência, sem culpa, sem medo, sem obrigações. Sentem como se cortinas se abrissem para um iluminado cenário; tudo muito leve, totalmente homogêneo. E assim o próprio sentimento os fizera entender que numa outra experiência viveram como Cristian e Cristiane, e mesmo que mudando os personagens a essência e o sentimento eram os mesmos. Sentiram que a realidade está no toque das almas, na sedução dos sentidos.

Olham-se e de lábios entreabertos dizem:

– Somos nós, seremos nós.

Num beijo indescritível, unem mais uma vez as almas num eterno eclipse.

Editora Vírtua

Sobre o Autor

Rafael Augusto Machado administrator

Rafael Augusto Machado é proprietário da Editora Vírtua. Especialista em Inbound Marketing certificado pela Rock Content. Formado em Jornalismo, é também professor, designer gráfico e músico.

1 comentário até agora

Marlene de Meira PassosPostado em8:46 am - set 20, 2018

Obrigada Rafael, você é um grande profissional e eleva seus escritores, que Deus o abençoe sempre

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