Categoria Espaço da leitura

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Um amor para todas as vidas – um conto de Marlene Passos

Num parque de diversões, crianças brincavam alegremente enquanto as mães conversavam. Cristian e Cristiane, apesar de terem apenas 8 anos, juravam amor eterno. Estudavam na mesma classe, eram vizinhos e as famílias cultivavam amizade de longa data. O tempo passou e na adolescência oficializou-se o namoro; um sentimento indescritível tomava conta de ambos. Um amor para várias vidas.

Chega o tão sonhado dia da formatura. Jornalistas, com orgulho! Depois da festa, toda turma de formandos foi para o aeroporto, de onde seguiriam em uma excursão a Fernando de Noronha. No avião, aquela alegria! Cristian e Cristiane olham-se com ternura e um dá parabéns ao outro. Em seguida, se beijam. Era tanto amor naquele beijo que nem sentiram que uma terrível tempestade aproximava-se. A turbulência jogava o avião de lado a lado, todos gritavam, o avião perdia a altitude e começava a cair de bico. O pavor era geral, mas o casal apaixonado nem se dava conta do momento, o êxtase da paixão era tanto que já estavam no paraíso.

Antes da queda, um raio de grande proporção causa a explosão do avião e fragmentos caem no mar. A tragédia vira notícia, o tempo passa rapidamente e todos esquecem do acontecimento. Cada um na sua rotina, vivendo sonhos, lutando, ganhando e perdendo. Vivenciando a vida… Certo dia Caroline, bióloga marinha, mergulhava para buscar algas que usava em suas experiências, quando, mexendo na areia profunda, encontra uma pulseira de ouro com data e nomes gravados.

Emerge e senta na praia, olhando a joia. Pensa consigo mesma: Cristian e Cristiane… Nossa, já faz 60 anos… De quem será essa pulseira? Vou colocá-la. Se encontrar o dono, a entrego. Cansada, vai para casa e num repente adormece. Em sonho, começa sentir uma sensação estranha de saudade e sem entender enxerga uma imagem.

Acorda com o coração palpitando, sentindo falta de alguém.

– Mas o que é isso? Um pesadelo? Sinto-me tão livre e feliz sozinha, não entendo essa reação! Vou tentar dormir novamente, não quero mais sentir isso!

Caroline fecha os olhos e dorme. O sonho surge como uma porta abrindo-se, revelando imagens confusas e vazias.

Amanhece e com o sol vem o alívio de uma noite cansativa.

Ela olha para a pulseira no braço e pensa:

– De quem será?

Sai para mais um dia de pesquisa e encontra o amigo Paulo.

– Bom dia, Paulo, tudo bem?

– Tudo bem, amiga, chegou um biólogo ontem à noite, está fazendo doutorado. Seu nome é Carlos Henrique, está na praia admirando o lugar da pesquisa.

– Vou encontrá-lo, estou com uma mostra diferente de algas, talvez ele possa ajudar-me a chegar a uma definição.

– Ok, vai lá, amiga.

Caroline vê o biólogo de costas e o chama:

– Olá, você é o novo biólogo Carlos Henrique?

Ele vira-se para ela e ambos sentem uma forte vibração. Sem entender, aproximam-se:

– Olá, sou eu. E você, quem é?

– Sou bióloga também, me chamo Caroline.

– Muito prazer em conhecê-la.

– Igualmente.

De repente ele é atraído pelo brilho da pulseira de ouro e diz:

– Linda joia, mas não me é estranha…

– Ah, eu achei. Se é de alguém que conhece eu a devolvo.

– Não, não conheço a joia, apenas senti que a conhecesse, mas é impossível, estou vendo-a pela primeira vez.

Mas, fale-me sobre suas pesquisas.

– Achei uma alga que não estava no meu catálogo, parece-me que está havendo uma transformação em suas células por causa do aquecimento das águas, às vezes parece um camaleão, muda de cor e, ao contrário do que deveria, em vez de liberar oxigênio ela está liberando gás carbônico.

– Isso é ruim!

– Exatamente.

– Você pode levar-me onde há mais dessas algas?

– Sim, vamos lá.

Colocam o equipamento de mergulho e vão em busca de matérias para pesquisa.

Chegando ao local, as algas mostram-se maiores e parecem entrelaçá-los. De uma forma estranha, começam a sugar o oxigênio dos cilindros. Rapidamente os biólogos emergem.

– Mas o que foi aquilo? Um ataque de algas!

– Parece que nosso oxigênio foi quase zerado!

– Muito estranho isso!

– Não deu para colher nenhuma amostra, mas tenho no laboratório, vamos lá, deixei-a num viveiro de plantas aquáticas.

Chegando ao laboratório, a alga havia sugado a energia das outras plantas e estava bem maior.

– Estou atônita! Não sei o que dizer!

– Vamos fazer uma experiência: colocá-la num lugar fechado de vidro, apenas com gás carbónico. Amanhã voltaremos e veremos o que aconteceu.

E assim foi feito. Na manhã seguinte, a alga estava bem pequena e apenas de uma cor.

– Isso quer dizer que o oxigênio, de repente, alterou o sistema, fazendo-a consumir de uma maneira desordenada e com a pressão interior liberou gás carbônico.

– Gás carbónico já tem demais em nosso planeta!

– Exatamente, mas que tal descansarmos um pouco?

– Tem um quiosque aqui perto, é uma maravilha.

– Vamos lá!

Enquanto caminham e conversam pela areia macia, a mente de Caroline parecia estar em outro lugar.

– Tudo bem?

– Às vezes parece-me tão distante…

– Não estou conseguindo entender a atração que sinto ao olhar para sua pulseira.

– Gosta tanto de ouro assim? – Ambos começam a rir.

– Não é isso. Não sei explicar.

– Eu achei, mas se quiser posso dar a pulseira prá você.

– Não, imagina!

– Mas então coloca a pulseira um pouco.

Caroline põe a pulseira no braço de Carlos Henrique e, num impulso, ele a segura nos braços e a beija com saudade e paixão. Depois, se afastam e ele pede desculpas.

19092018a - Um amor para todas as vidas - um conto de Marlene Passos

– Desculpe-me, não sei o que aconteceu… Parece que num segundo não era eu, não era você…

Em minha mente me enxerguei colocando a pulseira em seu braço como se fosse um presente…

– Também senti a mesma coisa…

– O que isso quer dizer?

– Vamos investigar.

– Na pulseira tem os nomes e a data.

– Deve haver uma explicação para esse mistério…

Os dois deixam a experiência das algas com outros biólogos e vão investigar aquele mistério. Pesquisando sobre a data que estava na pulseira descobriram que houve um acidente de avião e entre os mortos estavam um casal: Cristian e Cristiane. Ficam assustados e olham-se.

– Estou sem palavras…

– Eu também… E o que estamos sentindo? Parece que nos conhecemos há uma eternidade…

– Não sei explicar… Você acredita em reencarnação?

– Não! Claro que não! Seria uma amnésia sem sentido! De que vale estudar, sofrer, ter valores e tudo ser esquecido?

– Também não acredito, mas o que estamos sentindo?

– É tudo muito misterioso… Se observarmos, não somos os mesmos de quando éramos crianças, somos outras pessoas.

– Sim, mas lembramos de muitas coisas.

– E o que estamos sentindo não seria uma espécie de lembrança? Olha para mim, no fundo dos meus olhos, e diga o que sente.

– Sinto que não há tempo, não há distância, não há formato, há apenas emoção…

– Sinto o mesmo. É como se a forma fosse apenas um suporte, a essência é nosso elo.

– Deixe-me beijá-la, procure esquecer do personagem que ocupa, apenas sinta o que tiver que sentir.

Ambos aproximam-se e deixam levar-se por ondas da imaginação, rompem barreiras, tempo, vínculos, rótulos, costumes, apenas sentem a sensação de serem apenas existência, sem culpa, sem medo, sem obrigações. Sentem como se cortinas se abrissem para um iluminado cenário; tudo muito leve, totalmente homogêneo. E assim o próprio sentimento os fizera entender que numa outra experiência viveram como Cristian e Cristiane, e mesmo que mudando os personagens a essência e o sentimento eram os mesmos. Sentiram que a realidade está no toque das almas, na sedução dos sentidos.

Olham-se e de lábios entreabertos dizem:

– Somos nós, seremos nós.

Num beijo indescritível, unem mais uma vez as almas num eterno eclipse.

Editora Vírtua

Memória de giz, um conto de Jacque Soumelfe

Escritora mineira mergulha em sentimentos e lembranças que tocam o coração do leitor…


Vejo seu olhar distante, um sorriso tristonho e o corpo quase inerte. Daí começo a recordar o quão cheia de vida você era. Mulher que sempre tomava a frente de tudo, resolvia desde um pequeno problema a um grande desafio. Linda, cabelos longos da cor do sol. Olhos brilhantes e verdes como esmeraldas.

Se tínhamos algo a falar e uma dúvida a tirar, lá estava você para nos ajudar. Tantos conselhos, tantas palavras verdadeiras, exemplos de vida eram nos dados.

Quando em noite que o sono não chegava, lá estava você a nos contar uma história. Lembro-me bem das suas cantigas, suas músicas preferidas que vivia a cantarolar. E aqueles quitutes deliciosos que só essas mãos de fada conseguiam cozinhar… Lembro do beijo de boa noite antes de nos colocar na cama. Anos depois, os passeios e histórias aos seus netos a contar. Grande mulher, mãe, avó e esposa companheira. Jamais deixava para amanhã o que poderia realizar no dia de hoje.

Num dia qualquer, algo começou a mudar. Não sabia onde deixava seus pertences, não se lembrava de dar recados, esquecia-se de horários e datas importantes. Já não arrumava os cabelos com frequência e nem se maquiava. Um dia agressiva e no outro sonolenta. Fazia as mesmas perguntas repetidamente… De mulher ativa se transformou em uma mulher indiferente a tudo em sua volta.

E assim você foi diagnosticada com a Demência de Alzheimer. Aquele foi o dia mais triste. Tristeza que acometeu a todos nós, por sabermos que você, mamãe, em breve não se lembrará de nada do que viveu nesses longos anos de vida; e principalmente nunca mais lembrará de cada um de nós.

Hoje, somos nós, suas filhas e o papai que cuidamos de você, retribuindo todo seu amor, carinho e dedicação que um dia nos foram dados. Mesmo com nossos corações dilacerados, somos gratos a Deus por “ainda” termos seu colo, seu olhar, seu sorriso… Enquanto seu coração pulsar, com você iremos estar. E quando o último sopro de vida lhe acometer, ainda assim, iremos te amar e honrar, com a certeza de que um dia iremos te encontrar e novamente o seu abraço ganhar em doces e eternas lembranças, que nada irá apagar.

Continuo a ver seu olhar distante, um sorriso tristonho e o corpo quase inerte. Memórias de uma vida: família, amigos, conversas, passeios, chegadas e partidas. Para você, com giz, a vida quis escrever e tal qual um apagador, assim fez o destino, apagando aos poucos, bem devagar, tudo o que foi intensamente vivido. Assim, aos poucos se vão a dor e o amor para um mundo ainda desconhecido. Mas, para aquele que a vida com a caneta escreveu, fica a saudade de tudo que um dia viveu, principalmente “daquele” que a vida sua memória com o giz escreveu!

Percebo, mamãe, que Deus, por algum motivo, a fez especial. Deixou que sua memória fosse escrita a giz. Mesmo se apagando aos poucos, sua lição de amor e exemplos para sempre em nós vai ficar.

Jacque Soumelfe

quemfaz - Memória de giz, um conto de Jacque Soumelfe

 

“Encanto paralelo”, um conto de Marlene Passos

Espaço Leitura #2 traz um texto que fala sobre a força de um verdadeiro amor e da importância da integração entre os homens e a natureza

Encanto Paralelo

Iara e Iasmin são irmãs e com a família passam férias na fazenda. Ao despertar, tomam café da manhã.

– Hmmm, adoro esse cheirinho de café misturado ao cheiro de natureza… Logo mais vou dar umas voltas a cavalo.

– Também gosto da natureza, irmã, mas você sabe, prefiro as badalações das noites cariocas… Mas já que estamos aqui, vou cavalgar com você.

– Tudo bem, na pausa do passeio poderemos parar às margens do rio. Adoro aquele lugar, parece um santuário.

– Iara, seja feita a sua vontade!

As irmãs se divertem em ritmo de cavalgada, o galope torna-se atrativo. Depois de um certo tempo resolvem parar às margens do rio.

– Iasmim, vou entrar na água.

– Melhor não, esse rio tem muita correnteza.

– Sei nadar bem e vou ficar perto da margem.

– Ok, cuidado!

Iara havia colocado biquíni, então tira a roupa mostrando o corpo sensual, solta os longos cabelos loiros… Entra na água e delicia-se com a sensação refrescante. Resolve voltar, mas sente dificuldade. A correnteza aumenta. Se apavora e grita. A irmã olha para a água e se assusta, gritando:

– Iaraaaaaaaaaaaaa!

Iara luta contra a correnteza e afunda; nesse instante, um índio mergulha e a tira da água. Ele tenta reanimá-la.

Ela volta a si assustada e o olha sem nada dizer.

– Sou Tucuman, adorador da natureza – diz ele.

– O que aconteceu?

– Eu estava mergulhando e vi quando se afogou.

– Obrigada por me salvar.

O índio sorri e diz:

– Estou aqui para apreciar e proteger.

– Não sabia da existência de índios nessa região.

– Não há comunidades indígenas por aqui. Minha alma vive em comunhão com a natureza em todos os lugares.

Meus ancestrais são da civilização Inca.

– Estou confusa depois de tudo, mas está sendo uma agradável surpresa! Onde é sua morada?

– Perto daqui existe um lugar onde faço reverências à natureza em todo pôr do sol. Quer conhecer?

– Sim, como chegaremos lá?

– Pelas árvores.

– Como assim? São muito altas!

– Coloque seus braços no meu ombro.

– Como assim?

– Vamos, me abrace por trás.

Iara, sem entender, coloca os braços no ombro do índio e ele começa a escalar as árvores e pular de uma árvore para outra com muita rapidez. Iara grita assustada e ao mesmo tempo fascinada. Chegam num paraíso visual onde muito verde contorna pedras e um despenhadeiro tendo como lençol d’água apresenta uma linda cachoeira.

– Que lugar incrível! Estou encantada! Onde estamos?

– Não existe uma referência material, só enxerga esse lindo lugar quem respeita e ama a natureza.

– Estarei fora de nossa órbita?

O índio sorri e diz:

– Sente nessa pedra, o rio é manso e corre para a cachoeira.

– O que você vai fazer?

– Espere, nessas pedras guardo meu tesouro.

Tucuman vai atrás das pedras e aparece com flautas e chocalhos feitos de conchas, começa a tocar lindamente, tão lindamente que emociona Iara. Ele toca com a alma e grita, saudando a natureza. Os gestos são inebriantes, um deleite imortalizando o momento, uma verdadeira dádiva. Seus longos cabelos negros esvoaçam com o vento.

A música termina e Iara, admirada, diz:

– Você é perfeito! Como pode?

– Sou filho da natureza e minha gratidão faço dessa maneira.

– Estou sem palavras… É perfeito… sem explicação! Seu brilho é intenso, sua beleza é tão imensa que nem sei expressar!

– Toquei pra você porque senti sua sensibilidade.

O povo Inca vem de crenças politeístas, acreditamos em vários deuses, sempre reverencio Inti, o deus do Sol; amo Pacha Mama, nossa mãe da Terra, e toco minhas músicas para Pachacámac, deus dos terremotos, que nos dá forças para sobreviver depois das catástrofes.

– Também sou adoradora da natureza, amo as lendas e aqui é tudo tão completo que nem vi o tempo passar, perdi a noção!

– O tempo só existe para o que passa!

– Realmente… O que é verdadeiro reserva-se o direito de eternizar-se em nosso ser, fica tatuado na alma.

Ele se aproxima e diz:

– Seus olhos azuis são lindos, seus cabelos lembram o dourado de Inti, o astro Sol…

Ela acaricia os cabelos do índio e diz:

– Seus cabelos negros sedosos parecem o anoitecer que acolhe as vidas no repouso noturno cheio de mistério e magia…

Tucuman aproxima seus lábios lentamente e a beija. Iara mergulha num mundo paralelo e se embriaga de carinho; deixa-se envolver pelo encantamento do índio.

Depois do amor, ambos adormecem ao som da natureza. Ao despertar ela pensa ser tudo um sonho, mas o vê ao seu lado, ainda adormecido. Lindo. Ele também desperta.

– Pensei…

– Pensou que fosse tudo um sonho! Não foi sonho, mesmo que vivamos outras realidades, nosso amor será sempre real.

O índio vai até sua flauta e a segura como um troféu, chega à beira do despenhadeiro entre pedras e grita saudando a natureza; então, toca outra canção.

Depois se aproxima e acaricia o rosto de Iara, que o fita admirada.

– Nunca imaginei existir tanta pureza dentro de um cenário!

– A pureza é a origem, o princípio, o materialismo que camuflou as regras.

– Aqui é o paraíso?

– O paraíso está dentro de cada um, basta encontrá-lo e vivê-lo.

– Tudo aqui é mágico: a noite, o dia, o som, o toque, o cheiro…

– Vou lhe mostrar uma coisa.

Tucuman chega à beira do despenhadeiro e salta. Iara grita assustada. De repente, um lindo e enorme condor voa aos arredores, saudando a natureza. A ave se aproxima e pousa perto de Iara e devagar vai se transformando no índio.

– O que foi isso? Uma metamorfose?

– Sim. Meu povo cultua os animais sagrados como o condor e o jaguar.

De repente os olhos de Tucuman vão se transformando em olhos de Jaguar, e novamente ele se mostra como índio.

– Só quero explicar que posso me transformar apenas na aparência, mas minha essência sempre será a mesma. Sempre farei reverências à natureza, até mesmo para agradecer esse amor que para mim também foi uma surpresa. Espere um momento.

Tucuman sobe numa árvore, desce trazendo flores e começa a enfeitar os cabelos de Iara.

– Estou amando esse momento, mas preciso partir, minha família deve estar preocupada.

– Entendo, somos livres, filhos da natureza, a felicidade só existe se houver liberdade. A levarei de volta.

– Sentirei saudade.

– Sempre estarei por perto.

Num beijo cheio de pureza e sensualidade, se despedem. Tucuman a deixa perto da fazenda onde a família amargurada estava perto do rio; ele vai sem ser visto.

O tempo passa e, de volta à cidade grande, num belo dia de sol Iara entra na faculdade onde estudava Engenharia Florestal e uma amiga diz:

– Oi, temos professor novo.

As amigas entram na sala de aula e Iara surpreende-se ao vê-lo. Ela sorri e pensa:

– Imaginei tudo, menos ver meu índio como professor!

– Bom dia, Pessoal, sou o professor Alexandre, um apaixonado pela natureza.

A aula segue e Iara não consegue prestar atenção. Termina a aula, os alunos saem e o professor pede para que Iara fique.

– Você é…

– Sim, lembra quando disse que minha transformação é apenas na aparência e que minha essência será sempre a mesma?

– Sim…

– Tenho o poder de mudar a aparência, mas não consigo fugir do amor que sinto por ti. Esse está em minha essência.

– Também senti sua falta. No final do ano será minha formatura, pensei em ir até a fazenda para tentar vê-lo.

– O tempo não faz parte do meu sistema e não suportaria esperar, por isso me fiz professor.

– Mas você… nunca imaginei… Vai ficar até o final do curso?

– Não, Fiquei sabendo que precisariam de um substituto para o seu curso, foi então que resolvi me transformar em professor, pois tenho muito conhecimento sobre a natureza. Preciso senti-la!

– Aqui perto tem um bosque, vamos lá.

Ambos saem da faculdade e entram no carro de Iara, indo até o bosque. Saem do carro e caminham lentamente, lado a lado, quando de repente ele a segura e diz:

– A natureza faz parte do meu ser, igual a esse amor que sinto por ti. Num gesto de imensa saudade, ele a beija e os dois se misturam entre folhas, abraços e sussurros.

– Tive medo de não vê-lo mais.

– Nosso amor surgiu para nos unir num infinito querer.

– Às vezes me perco em pensamento… Você é um mistério…

– A vida é um mistério e se quiser ser feliz não tente compreendê-la.

– O que será de nós?

– Impossível saber, o sentimento parece como aurora boreal, muda constantemente suas cores mas permanece a magnitude da beleza. Para ser feliz é preciso entender que somos livres criaturas da criação e somente o presente nos pertence. Quando o sentimento se aflora na alma ele nos acompanha onde quer que estejamos, independente de características materiais. Em minha essência você convive e sinto seu ser invadir minha alma com especial doçura, não existe tempo em nosso espaço magnético. Por mais que faça-me bem sua presença, não posso estar sempre contigo, tenho minhas tarefas a fazer.

– Tarefas?

– Sou protetor da natureza, passei um período revigorando minhas estratégias mentais, preciso impedir o desmatamento; muitos lutaram pela preservação, mas o poder e o egoísmo prejudicaram o processo natural das coisas. Vim vê-la porque o que sinto por ti é imenso e sua alma é compatível à minha.

– Prometo lutar pela natureza. Semana que vem eu e meus amigos vamos plantar muitas árvores e faremos palestras falando da importância das matas ciliares.

– De pessoas como vocês é que a natureza precisa!

– Fui informado através de meu guia telepático que na semana que vem uns traficantes de animais selvagens irão invadir a mata. Preciso impedi-los.

– Onde será? Vamos avisar a Polícia Florestal.

– Não! Às vezes acontecem mudanças nos planos, preciso estar alerta. Não se preocupe, tenho minhas estratégias…

– Vou ficar preocupada.

– Não fique, preocupe-se apenas em plantar árvores e fazer palestras para conscientizar o povo. O planeta está passando por uma grave crise por falta de respeito do ser humano; estive observando o mar, que por absorver emissões de gases causados pela poluição, está ficando com a água cada vez mais ácida, colocando a vida marinha em risco. É preciso entender: o dinheiro não terá valor quando não tivermos o que plantar. Estou preocupado, mas no momento quero esquecer os problemas e me entregar a você, minha flor de açucena.

Ele a olha com carinho e continua:

– Você está em mim…

Ele a beija delicadamente e depois, com a explosão de um vulcão, a toma nos braços. Eles se misturam à brisa do orvalho e com um doce sussurrar ele se despede, anda entre árvores e desaparece.

Iara sorri de felicidade e sente que sua missão seria intensificar a ajuda na preservação. Na faculdade ela e os amigos fazem campanhas, palestras, viajam, vão a escolas mostrar às crianças a importância da natureza.

Enquanto isso o índio espera os traficantes de animais na mata. Camuflado entre folhas, ele só os observa. Homens chegam com carros contendo gaiolas e começam a captura.

Tucuman fecha os olhos e pede ajuda aos ancestrais para combaterem o crime, pois a flora e a fauna pediam socorro. De repente um vento muito forte começa na região, uma chuva forte arrasta alguns homens; parecia um dilúvio repentino. A tempestade diminui e o índio surge.

– Nosso Deus Viracocha, criador de tudo, mandou essa tempestade como último recado: ou vocês respeitam e preservam a natureza ou sofrerão sérias consequências.

Os ambientalistas e ecologistas não estão podendo combater a ganância do homem, o egoísmo e a ignorância dos pretenciosos; desde então o pai supremo resolveu intervir para salvar o planeta.

Os homens assustados tentam atirar no índio, mas as balas não o atingem e ele sorri:

– Vocês não podem com minha essência, vão embora, do contrário irão se arrepender pela punição merecida. Até o deus Supay, que habita as profundezas da terra, os punirá!

Os homens, assustados, soltam os animais que estavam capturados, entram nos carros e saem em disparada. O índio sorri. O tempo passa e é chegado o dia da formatura de Iara. Ela, linda, espera ansiosa pelo diploma. Vários professores estão apostos para a entrega do certificado, Iara nem havia percebido que Tucuman era o professor substituto na entrega.

Quando a chamam ela se surpreende ao vê-lo novamente como professor, mostra um lindo e amplo sorriso e vai até ele, que a entrega o certificado.

– Parabéns, você merece!

– Obrigada.

Em seguida ocorre uma festa cheia de alegria e realizações. Os formandos se abraçam e juram fazer a diferença num mundo tão carente. O professor se aproxima de Iara e diz:

– Não perderia essa oportunidade por nada!

– Como soube que o professor não viria?

– Tenho minhas estratégias…

– Você e seus mistérios…

– Tudo em nome do amor. Vamos àquele bosque depois?

– Quer ir agora?

– Não, esse momento é seu e de seus amigos, depois iremos. Vou esperá-la no local.

O professor disfarça e sai.

Já era madrugada quando Iara vai ao Bosque. Ao descer do carro, é surpreendida por dois marginais. Ela se assusta e sai correndo, caindo em seguida. Um deles a levanta e diz:

– Calma, lindinha, só queremos levar o carro, mas pensando bem, com essa beleza toda podemos até nos divertir um pouquinho…

De repente um enorme condor desce num voo rasante e fica entre eles.

– Olha só, meu mano, um passarinho!

Os marginais começam a rir e tentam atirar no pássaro, mas as balas não acertam. O condor os enfrenta com bico e garras, fazendo-os correr. Iara, assustada, vê o condor se transformar no índio.

Ela corre para os braços de Tucuman.

– Desculpe, meu amor, a coloquei em perigo!

– Faria qualquer coisa para estar contigo.

– Hoje é noite de eclipse, você sentirá uma nova sensação em nosso contato.

– Como assim?

Tucuman a beija e aos poucos ambos eles vão sentindo o sangue dos dois se misturar; começam a fazer parte da mesma magia. O bosque se torna bem claro ao receber a presença de ancestrais tocando flautas lindamente em homenagem ao casal de alma única. Enfim, tornaram-se luz para proteger o amor e a natureza. Num sorriso lindo, selam o pacto num beijo translúcido, cheio de sensações perenes.

Editora Vírtua

 

 

quemfaz - "Encanto paralelo", um conto de Marlene Passos

“Não julgue pela capa”, uma crônica de Gustavo Tamagno Martins

Texto do jovem escritor inaugura a seção “Espaço da leitura” do Vírtua Blog, dedicada a divulgar novos talentos da literatura. Clique e leia!

Não julgue pela capa
Por Gustavo Tamagno Martins

Mistério. Descubra as pessoas ao seu redor aos poucos. Conhecer uma pessoa vai muito além da impressão. Dê chances de conhecer, ouvir, conviver. Tudo leva um tempo para ser compreendido e processado. As pessoas são mais que apenas aparência. O conteúdo pode mudar seus conceitos e pré-conceitos.
Mesmo que te julguem pela primeira impressão ou pela aparência, nunca deixe ser aquela sua definição. Você é quem sabe, quem sente, quem convive, você é simplesmente você. Por que a preocupação com uma pessoa que não sabe seus sentimentos e lutas? Perceba a essência das pessoas. Note o coração dela, mesmo que não seja no sentido literal.

As pessoas podem ser comparadas a livros: algumas te enganam pela capa e outras te surpreendem pelo conteúdo. Em uma livraria australiana, existe uma prateleira onde os livros estão empacotados com papel pardo. Os clientes não podem ver a capa, nome do autor e nem o título. Apenas estão inseridas palavras-chaves e breves frases relativas à obra. Para quê? Para que ninguém as julgue pela capa. O projeto chama-se Blind date with a book (encontro às cegas com um livro). Nada é o que parece ser. Pense no mar: de longe é azul, de perto verde e por dentro transparente. Ao invés de olhá-lo de longe, mergulhe. O bonito mesmo é as pessoas enxergarem além das aparências.
Cuidado ao julgar alguém. Quando você julga uma pessoa, isso não define quem ela é, define quem você é. A pedra que você atira hoje pode ser a mesma que você tropeça amanhã. Quem é você para julgar o outro? Então use seu tempo para amar as pessoas e não para as julgar.

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